Captulo 1
Introduo
1.1 O que  a Psicologia do Desenvolvimento
Representa uma abordagem para a compreenso da criana e do adolescente, atravs da descrio e explorao das
mudanas psicolgicas que as crianas sofrem no decorrer do tempo. A Psicologia do Desenvolvimento pretende explicar 
de que maneiras importantes as crianas mudam no decorrer do tempo e como essas mudanas podem ser descritas e 
compreendidas.* 
Note-se que esta preocupao com o estudo da criana  bastante recente em termos de Histria da Humanidade. At 
poca relativamente prxima ao sculo XX, as crianas eram tratadas como pequenos adultos. Recebiam cuidados especiais 
apenas em idade precoce. A partir dos 3 a 4 anos participavam das mesmas atividades que os adultos, inclusive orgias, 
enforcamentos pblicos, trabalhavam nos campos e vendiam seus produtos nos mercados, alm de serem alvos de todo 
tipo de atrocidades pelos adultos. 
A partir do sculo XVII, a Igreja afasta a criana de assuntos ligados ao sexo, apontando as inadequaes que estas 
vivncias traziam  formao do carter e da moral dos indivduos. Passaram a constituir escolas onde, alm da 
preocupao bsica com o ensino da religio e da moral, ensinavam-se habilidades como leitura, escrita, aritmtica, etc. 
Esta atuao foi evidentemente limitada, embora tenha sido importante no sentido de apontar as grandes diferenas entre as 
personalidades das crianas e dos adultos. Esta limitao se refere tanto aos objetivos especficos propostos para a 
educao, como aos mtodos utilizados e ainda ao pequeno nmero de crianas atendidas. 
* As abordagens mais recentes a respeito do desenvolvimento humano consideram-no como um processo que se inicia na 
concepo e termina com a morte do indivduo. O leitor interessado nas vrias etapas evolutivas da vida adulta poder consultar 
as obras de Erikson (1972 e 1976). 
Mas despertou a conscincia da humanidade para uma reflexo acerca do assunto, e grandes filsofos dos sculos XVII e 
XVIII passaram a discutir aspectos da natureza humana, baseados nas suas prprias concepes a respeito da criana. 
J no sculo XIX e mesmo no incio do sculo XX observamos urna preocupao mais ampla e mais sistematica com o 
estudo da criana e com a necessidade de educao formal. Apesar disso, a disciplina era exercida, tanto nas famlias como 
nas escolas, de forma violenta e agressiva. Vrias formas de castigo  como palmatria, ajoelhar no milho, espancamentos 
violentos e quartos escuros  foram abolidas das escolas ainda recentemente, embora, infelizmente, algumas dessas prticas 
continuem sendo utilizadas em nosso meio, especialmente nas populaes de baixo nvel scio-econmico-educacional. 
Estas atitudes comearam a modificar-se a partir do estudo cientfico da criana, que se iniciou efetivamente neste sculo. 
Podemos ver, portanto, que dentro de uma perspectiva histrica de milhares de anos, em que predominou o total 
desconhecimento da criana, a nossa rea de estudos encontrou no seu incio uma srie de dificuldades para se impor como 
rea realmente sria, cientfica e til, do ponto de vista social. 
Iniciamos nossa histria como cincia do comportamento infantil com uma tendncia para descrever os comportamentos 
tpicos de cada faixa etria e organizar extensas escalas de desenvolvimento. Como exemplo podemos citar o trabalho de 
Geseli, nos Estados Unidos, ou de Binet, na Frana (este ltimo mais preocupado com medidas da inteligncia). A partir da 
elaborao destas escalas. de uma certa forma, o desenvolvimento de cada criana poderia ser medido e comparado com o 
que se esperava para a sua faixa de idade ou com o comportamento considerado normal. Por outro lado, atravs de um 
procedimento muito diferente, qual seja a psicanlise de pacientes adultos com vrios tipos de perturbaes, Freud chocava 
a humanidade no incio do sculo XX com suas descobertas a respeito do desenvolvimento da personalidade da criana e 
com a constatao de que certos acontocimentos vienciados na infncia eram os determinantes principais de distrbios de 
personalidade na idade adulta. Freud causou um impacto decisjvo ao mostrar a importncia dos primeiros anos de vida na 
estruturao da personalidade, determinando o cursc do seu desenvolvimento futuro no sentido da sade mental e da 
adaptao social adequada OU da patologia. A idia e a metodologia de trabalho de Freud, que sero expostas no prximo 
captulo deste livro, tiveram tambm o mrito de mostrar a presena de processos inconscientes em 
todas as fases da vida (derrubando o mito do homem racional) e da sexualidade infantil. 
Apesar de ter estudado pouco a criana em si, pois ele props a sua teoria de desenvolvimento, com base principalmente 
na anlise de pacientes adultos, Freud prestou contribuio inestimvel  nossa cincia. Muitas de suas idias continuam 
sendo plenamente aceitas, em nossos dias, ao passo que outras foram revistas pelos seus seguidores ortodoxos ou 
dissidentes. De qualquer forma, apesar das crticas que hoje em dia possam ser feitas  obra de Freud, seu nome continua 
presente entre os autores que mais auxiliam a compreenso do desenvolvimento psicolgico da criana. 
A psicologia infantil, podemos atualmente conceitu-la de maneira bem ampla, bem como a cincia, ou aspecto da cincia, 
que pretende descrever e explicar os eventos ocorridos no decorrr do tempo que levam a determinados comportamentos 
emergentes durante a infncia, adolescncia ou idade adulta. Pretende, pois, explicar como  que, a partir de um 
equipamento inicial (inato), o sujeito vai sofrendo uma srie de transformaes decorrentes de sua prpria maturao 
(fisiolgica, neurolgica e psicolgica) que, em contato com as exigncias e respostas do meio (fsico e social), levam  
emergncia desses comportamentos. Portanto, a nossa cincia pretende: 
a) Observar e descrever os fenmenos (exemplo: choro, agresso, linguagem, soluo de problemas, etc.). 
b) Explicar os fenmenos. Explicar quais os processos subjacentes, quais os mecanismos psicolgicos, internos, que atuam 
para possibilitar o aparecimento destes fenmenos comportamentais. 
Por conseguinte, a Psicologia Infantil pretende descrever e explicar o processo de desenvolvimento da personalidade em 
termos de como e por que aparecem certos comportamentos. Tenciona, portanto, conhecer os processos internos que 
direcionam o comportamento infantil. 
Para tanto, valemo-nos de pesquisas cuja principal finalidade  a obteno da descrio precisa dos comportamentos das 
crianas quer em situaes naturais (lar, escola, parque) quer em situaes de laborrio; e de teorias que propem conceitos 
explicativos desses comportamentos. 
Exemplificando: ao estudar a interao me-criana, aspecto fundamental para a compreenso da criana e da famlia, 
iniciamos pela observao de nossos sujeitos. Selecionamos amostras de pares me-criana representativas de vrios 
segmentos da populao, das vrias faixas etrias, etc. 
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Recorremos ento a um mtodo de observao e registro de comportamento: observao no meio natural e 
registro grfico ou em filmes, aplicao de questionrios e entrevistas, testes de desenvolvimento, etc. A partir 
deste procedimento, denominado coleta de dados, temos uma viso dos comportamentos emitidos pelos 
nossos sujeitos. Sabemos ento como se comportam me e filho, uma em relao ao outro, dentro de 
determinadas situaes delimitadas pelo nosso procedimento experimental. 
Trata-se de um passo fundamental, sem dvida, porm insuficiente. No basta saber que a me, ou as mes, 
tomam certas atitudes em relao a seus filhos. E necessrio explicar quais os fatores que determinam essas 
atitudes. Seriam caractersticas de personalidade da prpria me? Quais? Seriam as caractersticas da criana? 
Seriam fatores circunstanciais, momentneos? Seriam fatores externos  dinmica da prpria dupla 
(econmicos, por exemplo)? Quais as repercusses que essas atitudes maternas tero no desenvolvimento da 
personalidade da criana? E na prpria seqncia da interao? 
No momento ento em que estas dvidas so lanadas, torna-se necessrio recorrer  teoria, ou s teorias do 
desenvolvimento. Uma teoria do desenvolvimento se constitui num conjunto de conhecimentos tericos que 
oferecem subsdios para a explicao dos comportamentos observados. 
Fica claro ento que o psiclogo do desenvolvimento, atravs da pesquisa (descrio precisa dos fenmenos 
comportamentais individuais ou em situao de interao social) e da teorizao (tentativa de explicar e 
integrar os dados das pesquisas num todo coerente e unitrio), oferece subsdios para a compreenso: 
a) do processo normal de desenvolvimento numa determinada cultura. Isto , conhecimento das capacidades, 
potencialidades, limitaes, ansiedades, angstias mais ou menos tpicas de cada faixa etria. 
b) dos possveis desvios, desajustes e distrbios que ocorrem durante o processo e podem resultar em 
problemas emocionais (neuroses, psicoses), sociais (delinqncia, vcios, etc.), escolares (repetncia, evaso, 
distrbios de aprendizagem) ou profissionais. 
Assim, a Psicologia do Desenvolvimento  uma disciplina bsica dentro da Psicologia, pois nos permite 
conhecer e trabalhar tanto com as crianas como com os adolescentes e adultos. Oferecemos inmeras opes 
de aplicao prtica de nossa cincia tanto no trabalho profissional como psiclogos (clnicos ou escolares) 
ou ainda orientando profissionais de reas afins. Podemos auxiliar o educador, mostrando quais as 
habilidades, capacidades e limitaes 
de cada faixa etria nos vrios aspectos da personalidade (motores, emocionais, intelectuais, etc.), e assim 
ajud-lo a estabelecer programas escolares e metodologias de ensino adequadas, bem como programas 
esportivos e recreativos. 
Podemos auxiliar o assistente social, ensinando-lhe como orientar as famlias no sentido de proporcionar um 
desenvolvimento saudvel; o mdico, mostrando-lhe os componentes emocionais dos distrbios fsicos, etc. 
Enfim, a nossa cincia  muito abrangente e pode ter uma srie de aplicaes prticas. 
O psiclogo do desenvolvimento pode optar por um trabalho mais ligado  pesquisa do comportamento 
infantil, portanto um trabalho mais acadmico, ou  aplicao prtica. Neste ltimo caso, pode ainda atuar no 
sentido profiltico ou remediativo, clnico. 
Profilaticamente, podemos atuar junto s instituies da comunidade (famlia, escola, etc.), procurando criar 
condies para que as crianas possam ter um desenvolvimento saudvel, clinicamente, auxiliando aqueles 
que, pelas mais diversas razes, estejam apresentando distrbios de conduta ou de personalidade. 
No h dvida de que se torna necessrio, no momento atual da sociedade brasileira (onde o problema do 
menor vem assumindo propores cada vez mais graves), uma interveno do psiclogo infantil ao lado de 
outros profissionais. A divulgao de nossas idias junto s famlias e s instituies educacionais pode 
contribuir para que as crianas carentes recebam um tratamento mais adequado. Se os pais forem apoiados e 
educados no sentido de proporcionar mais afeto e mais estimulao para o desenvolvimento intelectual, e 
receberem eles prprios este afeto e esta estimulao, poderemos ento minimizar um pouco o sofrimento de 
nossas crianas e diminuir o grau de abandono em que se encontram. Se as escolas forem instrumentadas para 
elaborar programas educacionais mais adequados a estas crianas, menor ser o ndice de evaso escolar e de 
desajuste social e profissional conseqente. 
Enfim,  muito amplo o campo de trabalho tanto no sentido de conhecer a nossa criana (pesquisa) quanto de 
aplicaes prticas. Muito h para fazer. Mas,  sem dvida necessria uma grande disposio para o trabalho 
e para a sua avaliao crtica constante. 
Por um lado, temos um grande conjunto de conhecimentos cientficos e, por outro, inumerveis oportunidades 
de aplicaes prticas. Por que atuamos to pouco ento? Ou por que falhamos tantas e tantas vezes? 
Pelo menos em parte, a resposta est na jovialidade da nossa cincia. Pois, apesar da maturidade crescente que 
a Psicologia do 
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Desenvolvimento vem ganhando como cincia, notamos ainda muitos pontos falhos. E um dos principais pontos em que 
falhamos  o dos mtodos de pesquisa que temos. 
Antes de iniciarmos o estudo do desenvolvimento humano propriamente dito, focalizaremos rapidamente as dificuldades 
metodolgicas inerentes s pesquisas neste campo, pois se verifica que. acompanhando as investigaes empricas e 
clnicas a respeito dos fatores mais importantes e da forma como atuam no desenvolvimento da personalidade infantil, tem 
ocorrido, em paralelo, uma discusso sobre a adequao dos mtodos de investigao, que, em ltima anlise, determinam a 
validade e a credibilidade dos dados. 
To grande seria esta preocupao, que vrias anlises crticas foram feitas. Apenas na rea da interao me-criana 
podemos contar dez publicaes.2 
As pesquisas iniciais sobre o desenvolvimento da persona1idad infantil receberam influncia terica da psicanlise e 
gradualmente tiveram seus interesses deslocados dos estudos longitudinais para os efeitos que as caractersticas infantis 
exerciam na personalidade do adulto. 
Assim, historicamente, tais estudos se orientaram em duas direes diferentes: a da influncia do adulto sobre a criana em 
desenvolvimento e, posteriormente, a da influncia desta sobre o adulto. 
A primeira destas linhas de estudo preocupou-se com as prticas de criao infantil e os traos de personalidade dos pais 
associados com o desenvolvimento da personalidade da criana. 
Coerentes com esta orientao, esses trabalhos tomaram emprestados mtodos de investigao usados em estudos clnicos 
e em exploraes da personalidade humana, entre os quais se destacam as entrevistas e os questionrios. As possibilidades 
e limitaes desses procedimentos foram discutidas por Yarrow (1963), para quem as entrevistas representam 
autodescries de pessoas extremamente ego-envolvidas; sofrem, especialmente na classe mdia, influncia dos tabus e das 
expectativas sociais. Alm disso, as entrevistas e questionrios, quando usados para identificar atitudes adotadas pelos 
pais, requerem discriminaes e snteses muito difceis para a me ou para o pai. Pede-se ao sujeito que sintetize em duas 
horas de 
1 Uma descrio destes mtodos poder ser encontrada nas seguintes obras: 
Mussen, P.H.; Conger, J.J. e Kagan, J. Desenvolvimento e personalidade da criana. So Paulo, Ed. Harper, 1977 ou 
Pikynas, J. Desenvolvimento humano So Paulo, Ed. McGraw-HiIl do Brasil, 1979. 
2 Ver em Rappaport, C . R. Interao me-filho: influncia da hiperatividade da criana no comportamento materno. Tese  
U.S.P.. 1978. 
entrevista a essncia do processo de interao com seu(s) filho(s); 
e que ele se lembre dos seus sentimentos e dos de seus filhos; 
e assim ocorre o perigo de fazerem observaes gerais, baseadas 
em respostas a situaes especficas. 
A todas essas limitaes, acrescente-se que, quando vrios membros da famlia so consultados (pai, me, 
criana), os dados variam em funo do informante. Verificou-se, por exemplo, que quando uma das pessoas 
(digamos a me) sabe que a outra, o pai, tambm ser consultado, suas referncias sobre o marido tendem a ser 
mais positivas do que quando sabe ou pensa que apenas ela ser consultada. Embora no invalide as 
respostas maternas, isso tudo coloca a questo de se saber at que ponto elas refletem a situao. Usando 
estes procedimentos, alguns autores estabeleceram relaes comprobatrias dos princpios tericos relativos  
socializao infantil; mas, neste caso, diz Yarrow (1963), as correlaes so muito baixas, indicando apenas que 
existe algo que no pode ser especificado. 
A partir de 1945, alm dos mtodos correlacionais, um nmero crescente de pesquisadores preferiu observar 
diretamente a criana, usando para isso basicamente dois mtodos: a observao naturalstica, sem 
manipulao experimental; ou o mtodo situacional, que consiste no estudo de laboratrio com manipulao e 
controle das varivejs. 
Estes mtodos apresentam, porm, srias limitaes (Lytton, 1971). Por exemplo, as observaes naturalsticas 
realizadas no lar, embora permitam observar algumas facetas da socializao, como a hora do banho ou de 
dormir, contudo, podem perder dados valiosos. E que situaes de conflito ou punies podem ocorrer fora do 
horrio de observao. 
Geralmente, este mtodo sem estruturao  usado com bebs, pois so sujeitos mais fceis de serem 
observados (o que talvez explique o fato de a literatura oferecer um nmero muito maior de dados a respeito 
desta faixa etria do que das subseqentes). 
Na idade pr-escolar (2 a 6 anos), so mais raros os estudos deste tipo, quando se usam mais situaes de 
laboratrio. Em relao  idade escolar (7 a 11 anos) existem alguns estudos com objetivos especficos, por 
exemplo, o de verificar as reaes dos pais e das crianas diante de certas tarefas estruturadas. 
Quanto  observao naturalstica, os autores reconhecem que nela pode haver uma distoro no sentido da 
desejabilidade social. 
O laboratrio ou a sala experimental de brinquedos tambm leva s mesmas distores, embora alguns 
controles, como mudana inesperada de situaes, estejam sendo introduzidos no 
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sentido de forar o aparecimento de comportamentos espontneos, no planejados. 
Por outro lado, estudiosos com formao etolgica, como Blurton Jones (1972) ou Lytton (1971), criticam o que 
consideram como falta grave na metodologia de pesquisa da Psicologia do Desenvolvimento, qual seja a de ter pulado o 
passo essencial de descrio e de estudos normativos do repertrio comportamental de seus sujeitos. 
Embora sugiram para a obteno de dados o uso dos mtodos etolgicos, esses autores reconhecem a necessidade de cautela 
ao se transpor diretamente para o estudo de seres humanos, mtodos, tcnicas e mesmo dados colhidos com outras 
espcies. A transposio de tais modos e tcnicas constituiria apenas uma tentativa inicial para tornar mais rigorosa e 
vlida a observao. 
As dificuldades aqui apontadas devem ser levadas em conta quando se analisam as pesquisas e os resultados delas 
derivados. 
Alm disso, no se pode deixar de pensar que fatores externos  prpria criana ou  dinmica especfica estabelecida entre 
os membros da famlia possam interferir ou mesmo dirigir o processo de desenvolvimento. 
Isto porque, conforme sugestes de Biurton Jones (1972),  apenas a partir de uma abordagem mais ampla, que leve em 
considerao outras variveis alm das especificamente psicolgicas. que se poder chegar  compreenso do processo do 
desenvolvimento humano. 
Entre estas outras variveis uma delas  o nvel scio-econmico-educacional a que o sujeito pertence. E, neste sentido,  
pertinente relembrar as maiores dificuldades metodolgicas encontradas por alguns pesquisadores ao trabalhar com sujeitos 
de classe baixa. Entre estes, Zunich (1971) mostra a dificuldade de se obter um perfil real da interao me-criana em uma 
amostragem de pessoas de classe baixa  vinte mes de meninos e vinte mes de meninas de trs a cinco anos de idade  
atravs de um procedimento de questionrio e tambm observando diretamente a interao. Embora o autor acredite que 
esta fornea mais subsdios (mesmo que a reticncia ou inibio das mes interfira nos resultados) do que aquela onde os 
julgamentos so feitos por indivduos (os prprios sujeitos) menos qualificados do que os observadores treinados e 
objetivos. 
Estas rpidas consideraes a respeito da metodologia podem ser realmente desalentadoras para o pesquisador que procura 
uma forma de trabalho que possa conferir validade aos seus resultados. Se os mtodos tradicionais apresentam falhas e 
limitaes compro- 
vadas, e os mais recentes so ainda apenas tentativas, qual a melhor opo para o pesquisador? 
Nesse sentido lembramos ao leitor que deve estar ciente das dificuldades metodolgicas da pesquisa na rea da Psicologia 
Infantil e da Psicologia em geral, quando os resultados prticos e os conceitos tericos forem analisados. 
Apenas com o progresso na rea de pesquisas, acompanhado da crtica constante sobre a metodologia utilizada,  que se 
poder chegar, talvez, a modelos mais rigorosos e mais confiveis de coleta e interpretao dos dados. Sem dvida, so 
necessrios novos modos de se pensar e de investigar o processo de desenvolvimento humano, pois, quanto mais nos 
aprofundamos em seu estudo, mais parece estarmos atentos a aspectos particulares, mnimos, sem uma orientao 
subjacente, que nos permita uma viso global do processo. 
No que no sejam vlidos os estudos de partes do comportamento, e at talvez seja esta a nica forma de se abordar 
cientificamente a conduta humana ou animal: mas porque esses resultados, por vezes, se tornam fragmentados e no 
permitem que 
o interessado em Psicologia do Desenvolvimento tenha uma viso adequada do processo como um todo, dos 
encadeamentos e das influncias biolgicas e sociais que ocorrem, sem dvida, a todo momento, quer dando condies para 
o aparecimento de determinados comportamentos, quer impondo exigncias ou limitaes para a manifestao desses 
mesmos comportamentos. 
1.2 Bibliografia 
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lo 
